quarta-feira, 16 de julho de 2008
Yes? No, thank you.
Ter um ipod de 80 giga é muito legal, mas pra encher o aparelhinho dá uma baita trabalheira. Tô aproveitando esse espaço todo pra colocar álbuns considerados clássicos da música pop desde os anos 50. E a minha cultura musical tá avançando em progressão geométrica. Tô conhecendo de verdade e passando a respeitar várias coisas que eu criticava sem conhecer realmente, entre elas algumas bandas do chamado rock progressivo (Pink Floyd, King Crimson). Mas ao mesmo tempo alguns dos meus preconceitos estão se confirmando. O Yes não dá. Não dá mesmo. É desrespeito ao ouvido. É tortura. É desagradável. É repugnante. Dá enjôo e mal-estar. Dá raiva e ódio ao mesmo tempo. Provoca coceira e tira o apetite. Dá inveja de quem nasceu surdo. Acabo de eleger Close to the Edge (vinte minutos de masturbação insuportável que não levam a lugar nenhum, que tem simultaneamente os piores vocais e o pior teclado da história) como a pior música (se é que se enquadra nessa categoria) que eu já tive o desprazer de ouvir. Mas vou manter no ipod pra fazer apostas e testes de resistência com os amigos. O movimento punk faz cada vez mais sentido pra mim.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Quem matou Heath Ledger.

Texto que eu escrevi dois dias após a morte do ator.
Em 1940, Bob Kane criou aquele que seria o grande inimigo do Batman, a sua antítese perfeita: o Coringa. Talvez o Coringa seja a melhor encarnação do mal na literatura do século XX. Sim, porque quadrinhos também podem ser grande literatura. Quem não concorda, pode parar de ler agora.
Durante esses 68 aninhos de idade, o Coringa foi retratado por diversos roteiristas e ilustradores, desde os mais geniais até os mais medíocres. Mas todos colaboraram para que a imagem desse sorridente personagem se fixasse nas mentes infanto-juvenis do mundo todo. Ou pelo menos, daquela parte do mundo dominada pela cultura ianque.
Mas o Coringa é muito mais do que o pesadelo noturno de crianças impressionáveis. A concepção do personagem tem uma lógica adulta e realmente assustadora. Se o homem é inerentemente bom, a maldade é uma distorção da mente. A maldade não tem lógica nem propósito. E já faz tempo que o Coringa não é apenas mais um vilão atrás de dinheiro. Se o Coringa tem algum objetivo, é tentar injetar um pouco de loucura nas pessoas normais. O vilão traz à tona o mal que se esconde no coração dos homens, em desesperadas tentativas de mostrar que o seu comportamento é o normal. Em A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, ele (quase) consegue. A dúvida que ele coloca no Batman é a sua grande vitória.
O Asilo Arkham, onde o Coringa passa um tempinho entre uma fuga e outra, representa o mal concentrado, preso, contido. Como se fosse aquela parte da nossa alma que a gente faz questão de esconder e deixar quieta. As fugas em massa do Asilo, como a que acontece no genial Batman Begins (onde o Coringa só está em espírito), são a liberação da loucura presente em cada um de nós.
O fato, gente, é que o Coringa não é mais um mero personagem de quadrinhos. O Coringa existe. Sim, o Coringa existe. Não em carne e osso, é claro. Mas como uma tese sobre a natureza humana. Apenas esboçada quando Bob Kane o criou, mas desenvolvida ao longo dos anos. E quem teve um contato maior com o Coringa, além do bufão inofensivo interpretado por Cesar Romero na série de TV, certamente foi afetado. Quando um personagem consegue transcender a sua função dentro de uma história para se tornar alguém que revela algo sobre nós mesmos, ele passa a ter personalidade própria. Por isso, o Coringa é mais forte que o Batman. O Batman a gente sempre foi, desde que nasceu. Quem nunca disse, aos cinco anos de idade, numa brincadeira com os amiguinhos, a frase “Eu sou o Batman."? O Coringa começa a entrar na gente na fase adulta, quando passamos a pensar sobre a arte. Sim, porque quadrinhos são arte. Quem não concorda, pode parar de ler agora. Adultos, pensamos: “Mas será que eu também não sou um pouco Coringa?”
O fantástico diretor Christopher Nolan parece ter revelado a verdadeira face do Coringa em The Dark Knight. A maquiagem borrada, imperfeita, finalmente faz jus à loucura do personagem: a loucura não é simétrica. Tudo me leva a crer que esse novo filme explora até o limite todas as possibilidades do personagem, todo o seu alcance e tudo que ele tem de terrivelmente verdadeiro.
O mais que promissor Heath Ledger sentiu isso. A carga de interpretar o Coringa, pelo que está sendo revelado nos jornais, o levou ao consumo de remédios para dormir. Isso, associado aos seus problemas pessoais, acabou levando o ator a excessos que terminaram da maneira que todos sabem. Talvez o Coringa tenha revelado a Heath Ledger algo que ele não sabia sobre ele mesmo. E enquanto no mundo todo os fãs do jovem ator choram, alguém está rindo.
Álbum clássico do dia.

Passei o fim-de-semana ouvindo o álbum Specials, da banda inglesa homônima. O calor fora de época combinou com o disco, produzido pelo Elvis Costello e lançado em 1979. Specials é um álbum que faz uma espécie de revival do ska jamaicano, mas com influência do punk e guitarras em primeiro plano. Impossível ficar parado ouvindo um disco que abre com A Message to You Rudy, e que em determinado momento emenda Concrete Jungle, Too Hot, Monkey Man e (Dawning of A) New Era, numa das melhores sequências de músicas da história. Crítica social é o que não falta nas letras, mas o tom é alegre. Specials é um disco que deixa a gente feliz e com vontade de chutar tudo que vê pela frente, como são os verdadeiros grandes discos de rock (não me venham com essa de introspecção). Aproveite e ouça enquanto está quente.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Batman Begins (2005)

A melhor aventura do morcegão no cinema. É que Christopher Nolan é um cineasta superior. Ao não encarar o filme como uma mera adaptação de HQ, esse gênio fez uma obra realista, pesada e perturbadora. Com Batman Begins e The Dark Night, talvez ele consiga definitivamente o que Neal Adams, Frank Miller, Alan Moore e outros caras já tentaram: transformar de vez o Batman em coisa de gente grande.
Batman Forever (1995)
Batman Returns (1992)

Um conto infantil recheado de sátira política e tensão sexual. Dá pra definir mais ou menos assim esse filme onde Tim Burton teve total liberdade para criar. O repugnante Pinguim de Danny de Vito é o retrato da burguesia decadente. Max Schreck, o personagem de Christopher Walken, é o empresário que manipula políticos para proteger seus interesses. A Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer representa a mulher emancipada sexualmente, e que só por isso, é a maior de todas as ameaças. No meio disso tudo, o Batman de Michael Keaton se torna um autêntico e apagado coadjuvante.
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